Loolady

thoughts of a Lady almost in her 40s

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Agostinho da Silva



Há, no silêncio da noite, na luz lívida e fria do luar, no olhar gelado das estrelas, uma confissão de que tudo sofre, no mundo, de que a dor não existe apenas para o homem; em nenhuma condição se pode encontrar a felicidade senão através das ilusões: sem que se possa esclarecer porquê, a vida é trágica e o primeiro dever de quem pensa é pôr o sofrimento, solidamente, como a base de todo o existir. Fugir à dor é, apenas, para Leopardi, a pior das covardias, a única que verdadeiramente pode retirar dignidade humana; saber que a vida é trágica, que a vida não tem solução, que a vida é um engano, e proceder como se o não fosse é a marca definitiva de coragem, a afirmação plena de valor, a arte suprema do heroísmo” – Vida de Leopardi [1944].

“Sustento o seguinte: que, enquanto se é dono de alguma coisa ou animal ou pessoa, e muitas vezes temos que o ser para que cumpramos o nosso dever social, estamos dificultando o nosso entendimento com Deus, estamos impedindo que a sua vontade plenamente se revele. Pondo a ideia de uma forma dura e rápida: quem tem, não é. E é, entre outras razões, por não terem, que são possíveis os santos e que, apesar de todos os desvios, são ainda as ordens religiosas o sal da terra” – As Aproximações [1960].

“De todos os hábitos a que nos entregamos, um reina sobre todos os outros no que se refere a malefícios quanto ao mundo futuro. É o hábito de ter chefes. O medo das responsabilidades, o gosto de se encostar aos outros, o jeito mais fácil de não ter que decidir os caminhos fizeram que a cada instante lancemos os olhos à nossa volta em busca do sinal que nos sirva de guia. Quando surge uma dificuldade de carácter colectivo, a primeira ideia é a de que devia surgir um homem que tomasse sobre seus ombros o áspero martírio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isto tenha trazido grandes benefícios em outras crises da História; nem vale por outro lado a pena saber o que teria sido a dita História se outras se tivessem apresentado as circunstâncias. Mas, na presente, a verdadeira salvação só virá no dia em que cada homem se convencer de que tem que ser ele o seu chefe. Ou, dentro dele, Deus” - Só Ajustamentos [1962].

“[...] bem longe estaremos de qualquer resultado positivo se o povo, ao mesmo tempo que se educa, isto é, [...] ganha meios de expressão, se deseduca por maquiavelismos ou silêncios do jogo político, pelos interesses a curto prazo de uma economia de exploração ou por lhe porem como ideal não ser o que é, mas o modelo estrangeiro e adverso que pareceu mais desejável aos poderosos de momento” - Educação de Portugal [1970]. Mas o que mais importa é que cada um descubra e frua a sua essencial identidade com esse absoluto: “Crente é pouco sê-te Deus”.
“Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel” – Doutrina Cristã [1943].

“[...] só haverá paz para a consciência humana quando não existir distinção alguma entre o “eu” e o “outro”.

[...] a experiência mística de todos os séculos, de todos os países e de todas as religiões demonstra que o auge do sentimento religioso consiste numa fusão entre objecto do culto e sujeito do culto, num transformar-se o amador na coisa amada, num aparecimento da unidade perfeita onde a dualidade existia. Para um observador de fora, um homem intrinsecamente religioso, em perpétuo êxtase religioso, poderia dar a impressão de não estar prestando nenhum culto a nenhum Deus e, na vida prática, esse homem comportar-se-ia com a alegria, a espontaneidade, o desprendimento do selvagem, sem que também fosse necessário, fatal, o aparecimento de qualquer espécie de rito: esse homem teria reconhecido Deus em si e nos outros e viveria, naturalmente, sem tu e sem eu, de igual para igual, num universo inteiramente divino” – A Comédia Latina [1946-47].