Loolady

thoughts of a Lady almost in her 40s

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Poema em linha recta

A propósito de alguns posts que faço aqui neste espaço me darem vontade de vomitar :
O poema em Linha recta do Álvaro Campos, para não ser o óbvio "Aniversário"

Poema em Linha Recta
Nunca conhecí quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não uni pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que hà gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

38

Ontem festejei os meus 38 anos.
Mas festa festa, se lá chegar... quero fazer aos 40 quando inaugurarmos o projecto da nossa vida ( eu e o meu Amor e Sócio).
Quando tiver mais pormenores prometo que conto tudo!
Um Abraço apertado a todos os que se lembraram de mim, é bom é muito bom receber esses carinhos!

sábado, fevereiro 05, 2005

Lenços de Namorados-Wabi Sabi português

Haiku de inspiração wabi sabi

São praticamente intraduzíveis os significados de termos como wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão).

Não acham que isto tem qualquer coisa a ver com Portugal?
Será por estas e por outras que homens como Wenceslau de Moraes se apaixonaram pelo oriente?


Tradução de haiku feita por Wenceslau de Moraes:

Um templo, um tanque musgoso
mudez, apenas cortada
pelo ruído das rãs
saltando à água... mais nada

Aru tera, aru kokemushita ike
Seijaku, wazukani yaburareta
kaeru no oto ni yotte
mizu ni tobikonda, kû, kû...

(Tradução literal por Masuda)

Medicina Tibetana

Hoje tive uma consulta com o venerável Lama Lobsang Thamcho Nyima. Gostei muito de o conhecer, espero que continue a ajudar pessoas pelo mundo.
Volto já ao Wabi Sabi.

Mais Wabi Sabi

esta história do wabi sabi ainda me vai dar que falar aqui no blog.
Estou com vontade.
Querem mais?
Para já mais um link sobre um livro com fotografias inspiradas na sabedoria Wabi Sabi.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Wabi Sabi

Wabi sabi é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é uma maneira de "ver" as coisas de uma forma de simples, natural e aceitando a realidade.

Contam que o conceito surgiu por volta do século 15. Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou-o varrer o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu abanou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu transformou-se num grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição.

O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte. Efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.

Wabi sabi é olhar para o mundo com uma certa melancolia de quem sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela.

Para os olhos artistas de Leonard Koren wabi sabi é inseparável da sabedoria budista que ensina:

Todas as coisas são impermanentes

Todas as coisas são imperfeitas

Todas as coisas são incompletas


A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranqüilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, "a perfeição pertence a um mundo imaginário". No nosso mundo de verdade, aqui e agora, que tal abrir os olhos para o estilo wabi sabi?"